O que são as "escolas azuis" e por que elas estão transformando a relação das crianças com o mar.
O que são as "escolas azuis" e por que elas estão transformando a relação das crianças com o mar.
Fonte: Revista Crescer / Tainá Goulart
De comunidades indígenas a cidades grandes, o programa Escola Azul mostra como a cultura oceânica está entrando no currículo e impactando estudantes e comunidades em todo o Brasil. O objetivo é ensinar sobre o mar a partir da realidade local, fortalecendo o vínculo dos estudantes com seus ecossistemas e formando cidadãos mais preparados para os desafios climáticos.
Durante décadas, estudar o oceano na escola significava uma coisa: decorar o nome dos mares, localizar correntes marítimas no mapa, talvez aprender sobre a fotossíntese das algas. Tudo muito distante, muito teórico, muito... desconectado da vida real.
Agora, imagine seu filho aprendendo matemática contando ondas. Estudando biologia com os pés na areia. Descobrindo, na prática, como o plástico que ele joga fora pode parar na barriga de uma tartaruga. Parece diferente? Realmente é, mas esse movimento já está acontecendo em centenas de escolas públicas e particulares no Brasil.
Atualmente, mais de 300 colégios brasileiros já fazem parte do Programa Escola Azul. São instituições que colocam o oceano no centro do aprendizado e estão transformando como as crianças se relacionam com o mar. E mais do que isso: estão ensinando, na prática, a importância de cuidar do oceano.
"O grande objetivo é formar uma geração de pessoas que, independentemente da profissão que sigam no futuro, entendam que vivemos em um planeta água e tenham um olhar voltado à sustentabilidade e ao ciclo da água. Assim como nós, adultos de hoje, somos a 'geração Amazônia', queremos que as próximas gerações sejam a 'geração azul'", explica Ronaldo Christofoletti, pesquisador em cultura oceânica e coordenador o Programa Escola Azul Brasil.
Pois é. Essa é a primeira reação de muita gente. Falar de oceano faz todo o sentido para quem mora no litoral. Mas e para uma criança que vive no interior de Goiás? No sertão do Ceará? Em uma comunidade ribeirinha no Pará? É aí que mora a grande sacada do projeto.
"A grande riqueza do Escola Azul é deixar que cada escola olhe seu território, entenda sua realidade e escolha o seu projeto. Não damos um pacote pronto do que fazer", explica Ronaldo.
Essa "liberdade" faz com que colégios de qualquer lugar do Brasil (e do mundo) possam participar. Para se tornar uma "Escola Azul", a instituição precisa mostrar seu compromisso com a cultura oceânica e apresentar um projeto interdisciplinar com duração de 1 a 2 anos.
Só existe uma condição: que esse projeto mostre como o oceano está integrado à realidade daquele lugar, seja por meio dos rios que deságuam no mar, da alimentação local, do clima, da economia ou até da história e cultura da região. Em outras palavras, mostrar na prática como cada um de nós tem responsabilidade sobre o futuro do oceano, mesmo que a gente viva a milhares e milhares de quilômetros dele.
A seguir, confira entrevista exclusiva com Ronaldo Christofoletti, coordenador do Programa Escola Azul Brasil e pesquisador do Instituto do Mar da Unifesp. Ele explica como funciona o projeto, conta histórias que acontecem dentro das escolas e explica por que as crianças são a chave para transformar nossa relação com o mar.
CRESCER: O que é o projeto Escola Azul e qual o objetivo?
Ronaldo Christofoletti: O Escola Azul é uma proposta para que cada escola olhe para a sua própria realidade e entenda como as discussões globais — como as que vemos nas grandes conferências ou nas notícias — se refletem na comunidade local. A ideia é justamente tirar esses temas das telas e trazê-los para o nosso território.
Mas como a Escola Azul faz isso? Primeiro, ela parte do que chamamos de cultura oceânica, que é compreender a nossa relação com o oceano e o cuidado com a água. Afinal, vivemos em um planeta chamado Terra, mas 70% dele é água. Se não entendermos esses 70%, não compreendemos o que acontece no nosso território. Mesmo sem morar na água, nossa relação com ela é direta.
Quando 70% do planeta não está bem, nossa vida também não está. A mudança do clima é um exemplo disso. A Escola Azul convida cada instituição a desenvolver um projeto pedagógico em que o estudante seja o protagonista da construção do conhecimento. Não se trata apenas de falar sobre o mar, os rios ou o oceano, mas de pensar as ações locais, olhar para o território, identificar desafios e envolver toda a comunidade.
“Não se trata apenas de falar sobre o mar, os rios ou o oceano, mas de pensar as ações locais, olhar para o território, identificar desafios e envolver toda a comunidade escolar.”
Ronaldo Christofoletti
O programa é interdisciplinar: professores de História, Matemática, Português, Artes, Geografia, Ciências e até de Educação Física podem contribuir. Pensar o oceano passa por várias áreas do conhecimento e todos podem deixar sua contribuição.
O grande objetivo é formar uma "geração oceano", uma geração de pessoas que, independentemente da profissão que sigam no futuro, entendam que vivemos em um planeta água e tenham um olhar voltado à sustentabilidade e ao ciclo da água. Assim como nós, adultos de hoje, somos a “geração Amazônia”, queremos que as próximas gerações sejam a “geração azul”.
C: A semente desse projeto não nasceu aqui no Brasil, certo? É uma ideia que veio de fora e foi adaptada para cá. O que foi preciso mudar nesse processo? Existe algo muito particular do Brasil que precisa ser repensado quando falamos nesse currículo azul?
R.C.: O Escola Azul é um conceito que nasceu em Portugal. No caso brasileiro, a adaptação já veio olhando para a nossa realidade. A gente é um país muito amplo, com uma sociodiversidade enorme. Então, um critério desejável para ser uma Escola Azul no Brasil é que cada escola olhe para o bioma em que está inserida e encontre a relação dele com o oceano.
É um desafio, claro. Mas faz muito sentido. Não é à toa que hoje temos Escolas Azuis em todo o país — tem no Acre, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul... Quando a escola entende esse processo, ela cria projetos incríveis. Essa foi uma adaptação que o Brasil trouxe.
Agora, o Currículo Azul é outra coisa. O Brasil é pioneiro no mundo: foi o primeiro país a assumir formalmente o compromisso de criar esse currículo. Ele é o processo mais novo da ONU, que tem como meta que todos os países iniciem, até 2025, a inclusão da cultura oceânica no currículo escolar de forma mais ampla, para garantir sustentabilidade.
E, apesar de vários países estarem se movimentando, o Brasil foi o primeiro a responder oficialmente ao documento da ONU. O Ministério da Educação e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação assinaram esse compromisso em nível nacional.
O Currículo Azul se apoia em quatro grandes pilares. O primeiro é legislação. Para garantir a sustentabilidade do currículo, não basta a vontade do professor ou da escola — precisa de respaldo. E o Brasil já vinha construindo isso: desde 2021, foram 25 cidades com leis municipais sobre o tema e cinco estados. A primeira cidade foi Santos, reconhecida pela ONU como a primeira do mundo. Esse conjunto de legislações deu suporte para que o Conselho Nacional de Educação e o MEC entendessem a importância do tema em nível
nacional.
O segundo pilar é a formação de professores. O professor que está hoje na sala de aula normalmente não teve contato com esse assunto na formação inicial. Então, é preciso formar quem está chegando agora, mas também atualizar quem já está no território. Temos muitas ações acontecendo pelas universidades do Brasil afora. E, mais recentemente, o MEC, por meio da CAPES e da Universidade Aberta do Brasil, lançou o primeiro curso — que está em andamento desde agosto, em sete estados. É um curso de especialização com foco em sustentabilidade para professores da educação básica.
O terceiro pilar é material didático: como gerar conteúdos? A parceria entre Marinha e MEC, por exemplo, já começou a incluir temas nos livros básicos, como a Amazônia Azul. Até hoje, todos nós aprendemos que o mapa do Brasil termina “na linha da praia”, mas, na verdade, temos 200 milhas náuticas — 350 km — de área de responsabilidade brasileira. Uma medida educacional simples, mas poderosa, é incluir a Amazônia Azul nos mapas produzidos pelo IBGE. Isso muda a forma como as pessoas entendem o país. Além disso, estamos gerando materiais como podcasts e jogos, em várias parcerias.
E o quarto pilar é o engajamento da comunidade. O Brasil já tinha quatro compromissos nesse sentido. Um deles é justamente o Escola Azul, que é voluntário: a escola se autodeclara e, em muitos lugares, já atua junto das secretarias municipais. Hoje, temos quatro municípios em que 100% das escolas são azuis, porque a Secretaria de Educação incorporou o programa oficialmente.
Outro exemplo é a Olimpíada do Oceano, que engaja toda a sociedade — não é restrita às escolas. Qualquer cidadão pode participar. Está na quinta edição agora. Os dados consolidados do ano passado mostram mais de 62 mil inscrições e mais de meio milhão de pessoas atendidas pelos projetos, nas 27 unidades da federação.
C: De algumas décadas para cá, esses assuntos têm aparecido com mais frequência no ambiente escolar, mas ainda de forma muito pontual, né? É o Dia da Água, é o Dia da Floresta… O que diferencia uma escola que traz esse tema no currículo de forma sistemática de uma escola que trabalha apenas de maneira pontual? E por que é tão importante incluir a pauta da cultura oceânica de forma transversal dentro do currículo escolar?
R.C.: Esse era o maior desafio mesmo: explicar. Então, é bom quando as pessoas nos provocam. Eu até acho que a grande importância da educação ambiental é naturalizar a ideia do “planeta água”. Quando a gente fala isso pela primeira vez, causa estranhamento, porque, afinal de contas, a gente vive na terra — eu vivo no continente, a água que eu bebo vem de lá.
Mas, quando trazemos esse tema de forma natural e constante, de maneira transversal no currículo, a gente passa a entender os problemas atuais pelo olhar do planeta, e não apenas pelo nosso olhar individual. Ao trabalhar cultura oceânica, entendemos a dinâmica planetária — e a dinâmica planetária é a nossa vida.
Vou dar um exemplo. Uma vez fui chamado para apresentar uma palestra para o presidente Lula. Quando comecei a falar, ele olhou para a equipe como quem dizia: “Quem chamou esse louco para dentro da minha sala?”. Estávamos no auge da crise do café. E eu agradeci a oportunidade, porque era importante explicar por que as pessoas estavam pagando mais caro no supermercado, por exemplo, pelo café.
A lógica é simples: o preço dos alimentos — ou a variação no preço do café, ou do azeite, como vimos no ano passado — está ligado ao aumento das ondas de calor. E essas ondas de calor ocorrem com mais frequência por causa da mudança climática, que é regulada pelo oceano. No caso específico das ondas de calor, estamos vendo mais impactos porque o oceano está aquecendo há dois anos consecutivos. Quando o oceano aquece, o continente responde.
Aí o agronegócio é impactado, a economia é impactada, e o nosso bolso também é impactado.
Então, entender que a forma como vivemos tem relação direta com o oceano nos ajuda a formar cidadãos capazes de responder melhor aos desafios climáticos que vamos viver cada vez mais: chuvas extremas, ondas de calor, erosão costeira e outros fenômenos.
C: Um dos grandes desafios, Ronaldo, é entender como tudo isso se encaixa na BNCC. Afinal, como o educador pode trabalhar cultura oceânica sem “fugir” da Base? É possível fazer essa integração? Como orientar nesse ponto?
R.C.: Aí entra a grande importância de ter o programa Escola Azul há cinco anos. Porque a gente tem escolas em todo o Brasil que já nos mostram como fazer isso, que já nos dão essa resposta. É sempre um convite, porque a pauta azul — e principalmente a cultura oceânica — não aparece de forma explícita na BNCC. Mas, se a gente olha com atenção, ela está ali. Ela está ali — só precisa colocar o que chamamos de “lente azul”. Inclusive, por isso a conversa com o Conselho Nacional de Educação não é sobre reformar a BNCC. Não precisa. É só olhar para ela com a lente azul.
Então, o que a gente pede para os professores e para as escolas é que olhem para a BNCC e para aquilo que já trabalham, e identifiquem: onde está a lente azul? Onde está a conexão com o oceano? E quando convidamos os professores — num país do tamanho do nosso, com tanta diversidade e com realidades educacionais tão distintas — para nos ajudarem a encontrar essas conexões, eles trazem coisas incríveis. Porque já está na BNCC.
O processo do Currículo Azul que estamos fazendo agora é de baixo para cima. Estamos realizando uma escuta de norte a sul, leste a oeste, oficinas com os professores, e eles estão olhando para a BNCC e dizendo onde enxergam o azul ali. Claro, nós opinamos em algumas coisas, as universidades também opinam, mas a construção nasce da experiência deles. E vamos sistematizando isso primeiro municipalmente, depois regionalmente, até chegar ao nível nacional.
A BNCC é um grande holofote. Ela não pode detalhar tudo. Não tem como tratar o Currículo Azul da mesma forma no Pará, que é dominado por manguezais — o maior contínuo de manguezais do Brasil — e no Rio Grande do Sul, que sequer tem manguezais. Então, a BNCC precisa abrir caminhos, e depois os currículos estaduais detalham. É olhar onde o azul já está e ainda não está sendo explorado. Isso ajuda cada região a encontrar sua própria conexão.
C: E você comentou dessa iniciativa muito legal dos cursos de formação para educadores em sete estados. Mas a demanda é muito maior do que isso. Que caminhos você indica para educadores que não conseguirem acesso ao curso? Que ferramentas e que recursos buscar para já ir se aprofundando e aplicando em sala de aula?
R. C.: O que a gente sugere é o seguinte: hoje o Programa Mar de Ciência — que trabalha junto com o MEC e com quem coordena o processo do Currículo Azul e da Escola Azul — criou um repositório de materiais. Dentro do Mar de Ciência, há uma aba chamada “Materiais”. O que fazemos ali? Buscamos todos os materiais que são gratuitos e produzidos por professores, inclusive. Tem de tudo: desde desenhos do Bob Esponja até jogos, podcasts, materiais para todas as idades. Eles também estão classificados por temas: biodiversidade, poluição e muitos outros.
Esse repositório é o primeiro lugar para o professor encontrar o que precisa. Assim, ele não precisa gastar tanto tempo procurando: a gente já está trazendo.
E entrando em contato com a Escola Azul — e, aliás, podendo se tornar uma Escola Azul — que é um processo muito simples. As pessoas às vezes têm receio, acham que é uma demanda enorme, mas não é. No processo, a escola identifica um projeto que vai desenvolver ao longo de um ou dois anos, e muitas vezes já é um projeto que ela faz. Ela só passa a olhar para ele com a lente azul.
A Rede Escola Azul também divulga constantemente novos materiais, oportunidades, recursos de formação, palestras — e acolhe as dúvidas dos professores. A gente tenta muito acolher.
C: Na mídia, a gente costuma ver muitos cases de sucesso do projeto Escola Azul em cidades litorâneas. Santos é sempre citada por ter sido pioneira, São Sebastião apareceu recentemente, o Rio de Janeiro tem várias escolas adotando o projeto... Mas e as que estão longe do mar? Vocês já têm exemplos concretos de resultados nessas regiões?
R.C.: Quando a gente fala de “Escola Azul”, às vezes parece vago. Mas a grande riqueza do programa é justamente permitir que cada escola olhe para o próprio território, entenda sua realidade e escolha o seu projeto. Não existe um pacote pronto.
Uma escola indígena do Mato Grosso do Sul, que entrou na rede há cerca de quatro anos, fez algo lindíssimo. Ao pensar no projeto, eles perceberam que, na língua indígena da comunidade, não existiam palavras para vários termos relacionados ao oceano. Então, quando trabalhavam o tema em português, as crianças não conseguiam conversar sobre isso quando voltavam para suas aldeias.
A solução? Decidiram criar novas palavras na língua indígena — não a partir da escola, mas com os líderes das comunidades. As crianças explicavam os conceitos, os líderes propunham os termos, respeitando toda a hierarquia cultural. Quando soube desse projeto, me emocionei. É, no fim, um projeto de línguas — mas que conecta o Centro-Oeste ao oceano e envolve toda a comunidade escolar.
A gente também tem escolas no Acre, no Amazonas. Quando avançamos no Currículo Azul, em abril, levamos estudantes de várias regiões para Brasília. Uma delas, de Itacoatiara, no Amazonas, contou que nunca tinha visto o mar — vive a mais de 1.500 km dele — e não gostava de meio ambiente.
Ela entrou num clube de ciências por meio de uma bolsa de iniciação científica e começou a perceber que, mesmo tão distante, fazia parte desse grande ecossistema oceânico. Isso transformou completamente a forma como ela via o lugar onde vive. No ano passado, ela decidiu seguir carreira na área e, neste ano, ingressou no curso de Ciências Ambientais na UFAM.
Essas mudanças de visão são exatamente o que esperamos do processo.