Artista digital de Hollywood revela os perigos do hiper-realismo em jogos e desenhos animados.

Fonte: Blog Como Educar seus Filhos

Prof. Carlos: Conversando com o Piero sobre vários assuntos, descobri que ele trabalha em Hollywood. É isso mesmo, Piero?

Piero: É isso mesmo.

 

Prof. Carlos: E o que você faz lá?

Piero: Eu trabalho com efeitos visuais para cinemas e jogos. Mas, antes disso, morei praticamente minha vida inteira no Rio de Janeiro; trabalhei como professor de arte marcial durante alguns anos, de esgrima japonesa, conhecida também como kenjutsu. Foi minha primeira, vamos dizer assim, formação como pessoa. Depois disso parti para o design, até chegar à parte de computação gráfica. Nesse meio tempo, uni as duas coisas e escrevi um livro sobre simbolismo e percepção visual dentro da cultura japonesa. Em Hollywood acabei unificando as duas coisas, por isso tenho algumas coisas sobre o que conversar hoje.

 

Prof. Carlos: O que você faz lá exatamente? 

Piero: Eu trabalho na parte de efeitos visuais para cinemas e jogos, como freelancer. Por causa disso acabo percebendo muitos detalhes dentro da indústria que não são legais para quem pretende educar seus filhos.

 

Prof. Carlos: Aqui no blog há vários artigos falando sobre os malefícios do excesso de exposição de crianças a displays, monitores, jogos, desenhos etc. O que você pode nos dizer a respeito disso? É realmente prejudicial às crianças o excesso de exposição aos monitores e conteúdos que circulam por aí?

Piero: Com certeza. E acho que o pior mal que há hoje em dia não é nem a questão da exposição ao computador, mas ao celular. Hoje em dia a gente vê os pais deixando as crianças o tempo inteiro no celular, jogando Fruit Ninja etc. Da minha perspectiva profissional, vou explicar mais tarde aqui para o Carlos como isso vicia a criança visualmente e cria uma desconexão na fase em que ela deveria estar brincando fora, se sujando, pulando, fazendo ginástica.

 

Prof. Carlos: As crianças começam a se afastar da realidade e entram num mundo de hiper-realismo, seria mais ou menos isso?

Piero: Exatamente. Eu trabalho com efeitos visuais em 3D: você está tentando criar algo que parece real. Só que existem algumas partes técnicas que tornam impossível criar algo perfeitamente real. Isso acontece por uma série de fatores muito complexos para explicar aqui.

 

Mas o truque, a maquiagem que acontece, é o tal do hiper-realismo. O hiper-realismo é um grande problema, porque ele é uma ilusão que às vezes parece mais bela do que a realidade.

 

Se a criança não tem o contato com a realidade e vai direto para o hiper-realismo, depois, para voltar para a realidade, ela não sente como se aquilo fosse real: tudo fica estéril, mais feio. E isso ocorre porque ela ficou viciada, como se fosse numa droga.

 

Então ela não consegue se relacionar, tem problemas de saber como o mundo real funciona. Vimos isso o tempo inteiro, cada vez mais nas novas gerações.

 

Prof. Carlos: Tudo isso é de certa maneira programado? Ou seja, as pessoas que pensam nesses desenhos e jogos estão atentas à psicologia infantil e usam de artifícios para viciar as crianças?

Piero: Exatamente. Todos nós sabemos que a parte de entretenimento, no geral, é uma engenharia social.

Quem está produzindo tem o objetivo de manter o telespectador, o usuário cada vez mais viciado, querendo continuar dentro daquele mundo: quem assiste Netflix, assiste 10 episódios de uma vez só, ou a criança que fica jogando no celular. O termo que usamos para isso dentro da indústria é uncanny valley; é onde tudo começa. Em português é o tal do vale da estranheza.

 

É um gráfico que sobe e desce de repente, abruptamente, numa questão de empatia com a realidade; trata-se de um gráfico cartesiano que demonstra a empatia à realidade. Quanto mais vai se aproximando da realidade, vai tendo uma certa simpatia do telespectador, que entende que aquilo faz parte do real. Isso é bom, porque ativa a criatividade da criança.

 

O problema é que, quando chega ao muito real, tentando se aproximar demais da realidade, dizemos que cai no vale da estranheza: você vê que é algo que parece muito real, mas você sente que não é. Um exemplo disso é o filme O Expresso Polar ou Beowulf. Para sair desse vale é que entra o tal do hiper-realismo.

 

Existe toda uma técnica da indústria, uma pós-produção, para que aquilo fique mais belo. E começaram a perceber que ali estava o ouro: ali é que exatamente se consegue mexer com as percepções visuais das pessoas.

 

Hoje temos a tecnologia 4K, o HDR (High Dynamic Range) – que faz a pessoa ver uma coisa na tela que na verdade não é real, é hiper-real. Isso estimula o cérebro de uma forma que ainda não sabemos como funciona (aqui precisaríamos de um profissional da área médica para dizer realmente se já existe um estudo sobre isso).

 

Prof. Carlos: E com isso a criança começa a se afastar da realidade; ou seja, esses jogos, essas imagens são produzidos de modo que as crianças mantenham o foco no jogo, no desenho, mas, ao mesmo tempo, sabemos que essas imagens não refletem, não são um espelho da realidade. Isso é prejudicial? O que os pais devem fazer a respeito do assunto?

Piero: É muito prejudicial. Você danifica, de certa maneira, a imaginação da criança no momento em que ela tem de ser mais criativa: no início da fase infantil. A solução para isso é brincar muito fora de casa durante o dia, na claridade, no sol, pular, nadar; e na parte imaginária, desenhar, criar. Tudo fora do computador. Um bom exemplo é o próprio livro do Carlos, Linha, agulha, costura: canção, brincadeira, leitura.

 

Prof. Carlos: Eu mostrei meu livro a ele, para que avaliasse as ilustrações, porque adotamos critérios para escolher o ilustrador pensando numa coisa mais realista.

Piero: Exatamente. A própria pintura em aquarela é um bom exemplo: você está ativando a imaginação da criança, porque ela está tentando entender as formas que vê no mundo real e representar aquilo. Então é uma ótima comunicação. Agora, quanto a um jogo de celular ou assistir a um desenho hiper-realista, aquilo está pronto para ela, então a criança não está ativando a animação. Na verdade ela está frustrando a própria animação.

 

Prof. Carlos: Acho então que com essa sua análise, você que é um especialista que trabalha em Hollywood, os pais podem confiar nos artigos que veiculamos no blog, apresentando os problemas a esse excesso de exposição a desenhos, jogos etc.

Piero: Com certeza. A resposta nunca é a radicalização, você tem um caminho do meio. Temos de ficar muito atentos, tudo é um socioconstrutivismo: eles querem cada vez mais que seu filho fique preso àquilo. Com isso, as outras opções passam despercebidas, porque ele não consegue observar quando chega a uma idade um pouco mais avançada.

 

Prof. Carlos: Como, por exemplo, as imagens belíssimas que encontramos nesta igreja. Por que você escolheu este ambiente para conceder a entrevista?

Piero: Eu, como cristão católico, acredito que os vitrais e toda a arte da igreja é um exemplo da imitação positiva da realidade: da arte positiva tentando buscar a realidade. Ela não é uma hiper-realidade, não está tentando vender algo já pronto. Há uma busca espiritual dentro disso. As crianças têm de começar na imaginação até chegar ao ponto em que possam observar a beleza de tudo isso, a importância do belo na vida.

Resumindo: temos lá uma tentativa de imitar o real desde o início. Você vai subindo na escala e chega o momento em que a coisa está tão real que quebra; depois disso eles usam de artifícios para atingir o hiper-realismo. Isso está em todos os lugares: no joguinho de celular, no filme, na animação etc.

 

Prof. Carlos: E é isso que faz com que crianças fiquem diante de monitores por uma, duas, três horas?

Piero: Exatamente.

 

Prof. Carlos: Então é isso, Piero. Muito obrigado pelas informações, você é um especialista na área, e eu tenho certeza de que tais informações vão fazer a diferença no momento em que os pais começarem a refletir sobre os perigos do excesso de exposição das crianças a essas tecnologias.

Piero: Tablets, celulares, tudo isso.

 

Prof. Carlos: Valeu, Piero!

Piero: Eu que agradeço.

 

Prof. Carlos: Então é isso. Fiquem com Deus e até a próxima.

Quer saber mais? Fale com Silvana Perez, Pedagoga,

Psicopedagoga e Mestre em Educação.

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