Perdemos a capacidade de pensar?

Fonte: Pensar Contemporâneo

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Santo Agostinho diria que sim. Nunca se teve tanta informação e tão acessível.

Sabe-se tudo sobre tudo.

 

Eu me pergunto: Será isso um novo tipo de inteligência? Ou a consagração da superficialidade?Me parece que as informações vêm sendo replicadas de forma indiscriminada. Isto é, sem reflexão ou filtro, gerando uma dificuldade de interpretação e entendimento.

 

Talvez o conceito de pensar tenha sido sempre nebuloso, confundido, sobretudo, com a capacidade de armazenar informações. O fato de uma pessoa ser informada, não significa que ela pense, reflita e tenha discernimento. Ela é simplesmente informada. Pensar é outra coisa.

 

Isso porque o ato de pensar é livre de julgamento e referências culturais ou morais. É um ato de verdadeira liberdade.Faço um exemplo: ao conhecer uma pessoa, qual a primeira coisa que tendemos fazer? Julgar.

 

Buscamos nosso repertório cultural para “adivinhar” sobre o recém-conhecido. E a partir daí desfiamos nossos pré-conceitos para julgar o novo.

 

E como seria se conseguíssemos substituir o julgar pelo pensar?

Em primeiro lugar, nos aproximaríamos com empatia e sem buscar padrões em nosso repertório já conhecido. Dessa forma, tentaríamos compreender, com o máximo de generosidade, a realidade circunstancial e essencial do sujeito julgado.

 

Esta é a essência do pensar: Procurar entender o imenso espectro que envolve cada pequena realidade. Refletir a respeito. Doar-se de coração e alma. Porque ninguém, nenhum de nós existe isoladamente.

 

Somos seres dentro de uma contingência. Somos observadores e observados, todos nós. E o modo como somos percebidos ou percebemos o outro interfere, e muito, em nossas vidas.

Evidentemente não é tarefa fácil. Pensar desestabiliza muito.

 

É preciso um arsenal de qualidades humanas para ter a coragem de pensar e mudar o já pensado. Requer generosidade, inteligência, capacidade de reflexão, empatia, introspecção, abertura cultural, maturidade, segurança pessoal, coragem.

 

Pensar não produz verdades absolutas ou regras a serem seguidas. Tampouco é lucrativo ou produtivo no sentido utilitário destas palavras. Pensar te faz conhecer, entender, compreender. Para que serve? Nada. Ou tudo. Serve para perceber a essência da vida.

 

A segurança do repertório

A defesa da rigorosidade comportamental é um dos indícios mais claros de insegurança pessoal. Frente ao desconhecido, fogo! Antes de parar para pensar, refletir, analisar, dispara-se um repertório amplamente conhecido e estabelecido, portanto, garantido. Pronto, tudo resolvido.

Não se muda nada. Ninguém entra, ninguém sai.

 

Por isso é tão difícil sair do próprio umbigo cultural. Ir até o outro, compreender a cultura do outro, respeitá-la (mesmo não querendo fazer parte dela). Dialogar. A cultura é uma piscina sem bordas na qual estamos mergulhados até o pescoço. Sair disso seria perder todas as referências. Ficar só. Então, o que fazer?

 

Transcender

Para transcender tudo isso, se elaborar intelectualmente e espiritualmente, construir relações verdadeiras, de respeito mútuo, tomar decisões conscientes (inclusive consciente do preço a se pagar a cada decisão tomada), o único caminho é por meio desse difícil ato de pensar.

 

Não existe outro jeito para a construção de si mesmo e de um mundo melhor em todos os sentidos.

Pensar exige, inclusive, abandonar completamente o mundo das aparências, com o qual estamos tão familiarizados e no qual nos sentimos em casa e adentrar em um mundo mais abstrato.

 

É uma atividade, digamos, do espírito, invisível e muda. Mas que tem a força transformadora mais potente em absoluto.

 

Para encerrar, repito Santo Agostinho: Pensar é um ato de amor. Consigo mesmo e com o próximo. Pensem…

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