Por que as histórias são fundamentais na educação

de crianças e jovens?

Fonte: blog Como Educar Seus Filhos

Imagem: Pixabay

Esta não é a única maneira de ensinar, e talvez não seja sequer a mais perfeita – mas é uma forma de preparar o terreno, é importante e é natural. Não por acaso, Jesus ensinou por meio de parábolas; também não é por acaso que o Antigo Testamento seja constituído, em grande parte, de histórias – verdadeiras, mas ainda assim histórias – sobre nossos precursores na fé.

 

Os homens aprendem por meio de histórias, especialmente os mais moços, e assim se preparam para o aprendizado dos princípios. Uma grande vantagem das histórias é que o leitor pode obter o conhecimento sem experimentar as dolorosas e destrutivas conseqüências que não raro acompanham a experiência vivida.

 

Tenho certeza de que muitos já leram a obra Razão e Sensibilidade, de Jane Austen.

Muitas e muitas vezes desejei que toda moça – e, na verdade, todo jovem – lesse esse livro. As personagens Marianne e Eleanor têm de lidar com a traição por parte daquele a quem amam.

 

Marianne o faz de modo emocional e auto-centrado, e quase se destrói no meio do caminho. Eleanor, por outro lado, luta contra o egocentrismo, aprende a submeter suas paixões à razão e tem uma perspectiva caridosa para com as pessoas com quem lida.

 

É uma mulher muito mais feliz, e todos ao seu redor também são mais felizes. O livro nos faz ver que Eleanor está com a razão, e também desejar que Marianne aprenda com ela (o que por fim acontece).

Jane Austen realiza admiravelmente o que Santo Tomás afirma ser a missão do poeta: “dirigir-nos para a virtude por meio de uma representação adequada”.

 

Aprendendo com as histórias a fazer a coisa certa.

 

Em um artigo recente, intitulado American civilization has lost its way [“A civilização americana se perdeu

no meio do caminho”], Michael Novak afirma:

“Normalmente a moral nos aparece por meio da linguagem dos códigos morais e dos mandamentos.

Faça isto, não faça aquilo. Entretanto, é muito mais instrutivo abordar a ética e a moral por meio de histórias e narrativas.

 

A razão pela qual a narrativa funciona melhor do que um código ou um conjunto de mandamentos é que aquela se faz pelo entrelaçamento vivo da imaginação, do modo, do estilo, e mesmo do tom.

Por exemplo, reza o mandamento: ‘Honrar pai e mãe’. Mas o mandamento não nos diz nada sobre a maneira pela qual devemos fazê-lo, com que tom de voz, com que grau de delicadeza e/ou assertividade, ou se devemos fazê-lo com devotamento renovado ou por simples rotina.

 

Às vezes, fazer a coisa certa de um modo errado é frustrar o objetivo.

Talvez seja por isso que Jesus preferiu, tantas vezes, falar por meio de histórias, mais do que pela enunciação pura e simples de mandamentos.

Ele queria transmitir o modo e o estilo das ações, e não apenas o seu conteúdo.

Ser gentil, bondoso, disposto a perdoar, a conter o desejo de esmagar o caniço rachado – tudo isso era essencial para sua mensagem.

 

Agir como cristão não é apenas cumprir certos deveres abstratos ao pé da letra, mas também viver segundo o espírito e o caráter da lei. De certa forma, é mais correto falar de uma imitação de Cristo, mais do que de uma mera obediência a Cristo. Somos todos peritos naquele truque das crianças de cumprir a ordem dos pais ponto por ponto enquanto zombamos da tarefa.”

 

Por meio das histórias, assim, o leitor encarna as ações dos personagens sobre os quais está lendo,

principalmente as do protagonista, tal como praticadas por um indivíduo, e não como uma proposição universal.

Sabemos que nossas emoções devem ser ordenadas pela razão, mas, ao acompanhar o exemplo concreto de Eleanor lidando com suas dificuldades, vemos como isso se dá, e mesmo sentimos como isso se dá.

 

O leitor tem o privilégio de participar da vida de mais de um personagem, e de ver e sentir o que acontece quando permitimos que as emoções governem a razão, como faz Marianne.

É por isso que as histórias muitas vezes movem o coração na direção do bem de uma maneira que o ensino direto da verdade – principalmente no início, e principalmente nos jovens – não é capaz de fazer.

 

Quando encontramos essas verdades de modo concreto, encarnado, capaz de conquistar tanto a mente quanto o coração, a tendência a rejeitar o ensinamento será menor.

O leitor é um companheiro de viagem e aprende com os personagens; ele está aprendendo as lições que a vida ensina, e as está aprendendo sem que haja um confronto direto.

 

Existe, em muitas pessoas, uma resistência a simplesmente receber ordens. Mesmo quando a pessoa obedece, o ato de obediência não chega a ser um ato da pessoa inteira, como ressaltou o Dr. Novak. Quando converso com as mães a quem aconselho, sempre reitero que “a obediência não é um bem, a menos que venha do coração”. As histórias cativam o coração das crianças.

 

O Dr. Andrew Seelev, em um recente artigo publicado em seu website, explicou que a leitura de O Senhor dos Anéis, quando ele era jovem, “conquistou seu coração e despertou sua imaginação”.

Essa leitura inspirou-lhe “um anseio por grandes feitos para além da vida cotidiana confortável, estável e segura”.

Ele explica: “Aquele anseio por um ideal imaginado preparou-me para abraçar o catolicismo como o tipo mais alto e mais verdadeiro de narrativa.

 

” Vivenciar a história contada por Tolkien, da maneira como se vivencia uma história, não apenas conquistou como também moldou seu coração, mostrando-lhe um universo moral que ele não havia encontrado na cultura secular em que vivia, e movendo-o na direção desse universo.

 

Aprendendo com a experiência alheia.

 

Por que isso acontece? O que é que as histórias têm, que lhes permite operar esse efeito em nossos jovens?

E como tirar o melhor proveito dessa qualidade?

 

O primeiro benefício que obtemos ao ler bem uma história é aumentar nossa experiência.

No livro Um Experimento na Crítica Literária, C. S. Lewis afirma o seguinte:

“Cada um de nós tem, como impulso primário, o desejo de nos preservar e nos engrandecer.

Como impulso secundário, temos o desejo de sair de nós mesmos, corrigir nosso

provincialismo e aplacar nossa solidão.

Fazemos isso por meio do amor, da virtude, da busca pelo conhecimento e da recepção das artes.

Evidentemente, esse processo pode ser descrito tanto como um engrandecimento

ou como uma aniquilação temporária do nosso ser.

 

Mas este é um antigo paradoxo: “aquele que perder a sua vida, achá-la-á”.

Lewis prossegue:

“… tornamo-nos esses outros eus. Não apenas, ou não principalmente, a fim de vermos como são, mas a fim de vermos o que vêem; a fim de ocupar, por um momento, seu assento no grande teatro, ver por meio de suas lentes e libertarmo-nos das percepções, alegrias, terrores, maravilhas ou regozijos que aquelas lentes possam revelar… Isto, até onde posso compreender, é o valor ou benefício específico da literatura considerada como logos: admitir-nos a uma experiência para além da nossa própria.”

 

Esse é um imenso benefício proporcionado pela leitura de histórias. Mas, assim como nem toda experiência vale a pena ser vivida, nem todo livro vale a pena ser lido. Ainda segundo as palavras de C. S. Lewis: “Aqueles dentre nós que crescemos lendo livros raramente nos damos conta da enorme parte do nosso ser que devemos aos autores.

 

Torna-se mais fácil percebê-lo quando conversamos com um amigo que não tem o hábito de ler. Ele pode ter um bom coração e muito bom senso, mas habita um mundo estreito… Meus olhos não são o bastante para mim; preciso dos olhos de outrem…”

 

A essa altura do texto, C. S. Lewis faz outra afirmação sobre a qual vale a pena refletir.

Ele diz: “A experiência literária cura as feridas sem suplantar o privilégio da individualidade.

” Não é interessante? Perguntamo-nos imediatamente: “O que ele quer dizer?”

A ferida à qual ele se refere, penso eu, é a solidão (como ele disse antes).

 

O indivíduo está sozinho e é incompleto; ele precisa do outro para completar o seu ser.

Prossegue o autor: “Existem as emoções de massa que curam a ferida”, isto é, nos dão as experiências de outros seres, “mas destroem o privilégio.

 

Nelas, nossos eus separados são lançados numa vala comum, e regredimos a uma subindividualidade” (algo não muito diferente da idéia defendida pelos aristotélicos árabes de que, extinta a vida mortal, todos os homens seriam plasmados em uma grande consciência).

 

“Porém”, afirma Lewis, “lendo a grande literatura, torno-me uma centena de homens, sem deixar de ser eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo por uma miríade de olhos, mas ainda sou eu quem vê. Aqui, como na adoração, no amor, na ação moral e no conhecimento, transcendo a mim mesmo, e deste modo sou mais eu mesmo como jamais o fui.”

 

Na leitura de uma boa história, vejo como outros vêem, compreendo o que não compreenderia

por minha própria conta, e o faço ampliando – e não sufocando – meu entendimento individual.

As histórias obtêm esse efeito porque ensinam, não didaticamente, mas nem por isso de maneira menos fiel,

e por meio da história minha mente e minha vontade são guiados em direção à verdade.

 

Trecho de conferência de Laura Berquist para o Institute for Catholic Liberal Education, de julho de 2006, sob o título “Reading literature to reveal reality”. Traduzido para o blog Como Educar Seus Filhos. 

Quer saber mais? Fale com Luciana Lauretti.

Psicóloga Cognitivo Comportamental.

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