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O TDAH e a exaustão da pandemia.

Fonte: TDAH Descomplicado

Estamos entrando no terceiro ano de pandemia e a maioria de nós está cansado, esgotado de tanta tensão, tantas medidas de prevenção, tantas más notícias, enfim...


E nós, TDAHs, como estamos?

Minha mulher acha que passo incólume por tudo isso. Não é verdade. Talvez eu passe de maneira diferente, mas nunca incólume.


A exaustão mental que todos estamos sentindo faz parte da rotina diária do TDAH adulto. A tensão que vivemos para tentar evitar a próxima falha, o próximo esquecimento. O terror quase diário ao descobrirmos que erramos novamente, esquecemos novamente, seremos advertidos novamente, seremos demitidos novamente...


Essa expectativa não nos abandona e, em grande parte dos TDAHs, toda essa história de vida ‘evolui’ para ansiedade crônica, pânico e afins. Vivemos aos sobressaltos.


Ninguém imagina o que é ‘achar’ que errou ou esqueceu de algo importante para lembrar-se segundos depois que fez o que deveria. Uma descarga de adrenalina atravessa todo o corpo, uma sensação de pânico assalta a alma, um filme dos piores erros já cometidos passam num flash na mente seguido das possíveis consequências advindas dessa nova falha.


De repente lembramos que sim, fizemos a tal tarefa, ou não nos esquecemos do que não deveríamos nos esquecer. Em geral, um leve sorriso de alívio surge no rosto. O corpo relaxa imediatamente e uma sensação de paz toma conta da alma. Mas por quanto tempo? Dias? Semanas? Meses?


Doce ilusão... Podemos ter esse conflito interno várias vezes por dia. Diariamente é praticamente garantido. Somos programados pela cultura atual a sermos máquinas de produtividade infalíveis.


Devemos ser perfeitos em todas as áreas: pessoal, profissional, afetiva... Existe uma propaganda do analgésico Advil cujo slogan eu odeio: para você fazer mais por mais tempo. Isso é insuportável. Ninguém deveria ser submetido a isso. Mas somos, e essa nova cultura do fazer mais por mais tempo nos desmascara, praticamente não temos tempo para apagar os rastros dos nossos erros.


Ou de simplesmente consertá-los antes que sejam descobertos. Ou, no mínimo, conseguirmos boas desculpas para o enésimo esquecimento. Não há tempo. Tudo é em tempo real. Tudo é agora, on line e com dezenas, centenas de pessoas com acesso ao que deveríamos ter feito.


A exaustão da pandemia nos é familiar. É nossa companheira, nossa irmã siamesa. Carregamos o inimigo dentro de nós mesmos e o combatemos vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem pausa...


Mesmo nas férias, nos fins de semana, quando o aspecto profissional descansa precisamos estar atentos ao lado pessoal, precisamos medir o que falamos aos nossos parceiros, precisamos parecer interessados nos assuntos alheios, interagir socialmente... Não há pausa quando tudo que se quer é que o mundo pare e nos deixe respirar, pensar e agir no nosso tempo, do nosso modo.


Conviver com a exaustão não é novidade para o TDAH, a novidade é que agora podemos externá-la sem medo de sermos apontados como fracos ou anormais. Não sei quanto tempo isso vai durar.


A pandemia, que no início parecia que iria revelar o melhor lado do ser humano, está revelando o que há de pior na humanidade, quem pode explorar os mais frágeis da forma mais despudorada imaginável. Não há solidariedade, empatia ou complacência. Como diz o ditado: farinha pouca, meu pirão primeiro.


Quem, como os TDAHs, vieram com menos armas, ou armas inaptas para essa batalha, que se dane. Viva às turras com suas próprias deficiências e fracassos. Por isso são tão importantes as políticas públicas afirmativas.


As políticas públicas visam dar a todos senão as mesmas armas, dotar os mercados de regras que igualem o jogo. Mas isso é pedir demais do ser humano, que ao longo da história se notabilizou por explorar os fracos, legislar em causa própria e expoliar seus pares.



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